terça-feira, novembro 06, 2012

àqueles que servem a tudo para manter a paz


 já não lhe fazia mais sentido tensionar lutas de classe, ou apenas os músculos do corpo para se conservar de pé, produzindo.
seu lastro, o dever. seu sonho um vir a ser contínuo. bastava de se apresentar como qualquer promessa, um sem fim de espiral a zoar suas próprias expectativas. pensava, bem lá no fundo, em experimentar a tal vida doce da barata. sem as angústias ou devaneios de quem se processa nela ou de quem deveras sente em esmagá-la.
queria andar livre pelo esgoto, pelas casas, e uma vez farto de chineladas, abrir as asas e dizer: nem tenta decifrar. eu te devoro.
violento e solene sairia voando, sem rumo, a espera de uma hecatombe, com a certeza maior de sobreviver.

segunda-feira, junho 15, 2009

jeg elsker deg

no meu alfabeto há vogais demais pra dizer por aí onde você anda.
tenho sentido a falta dos seus pequenos gestos, dos cabelos pequenos misturados aos meus nos travesseiros, do seu sorriso claro, dos beijos de bom dia, do calor das suas costas no meu peito. saudades que vão durar mais alguns dias, mas que me afetam essa noite, de céu tão limpo feito o seu nome.
por aqui, na cidade de sol, tem feito frio, talvez nem tanto quanto a primavera nas brancas paisagens que te saltam aos olhos. queria estar mais ao lado do que dentro de você, por ora: um boa noite em língua estranha e um beijo das nossas. mas te espero de mãos quentes e pés gelados, com essas poucas e específicas linhas do meu mais seguro amor.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

por hoje

tira teu véu, o fingidor. sem tuas caras, foram-se todas, as dores já não te implicam mais. tuas pernas, agora duas, põe-se a andar. a vida pede por dias, teus sonhos ainda hão de ser mais. tua mão tem uma letra de três pontas, teu peso não passa de ar. teu corpo quente, o chama de noite, teu amor tem nome claro, te convida a descansar.

terça-feira, outubro 14, 2008

a segunda

senhorita,

há meses lhe aguardo uma resposta. sei bem das suas complicações laboriais, portanto, sequer lhe cobro. apenas coloco de novo, para mim e ti, ventos que sopraram.

foi nos olhos, direto, e no peito por conseqüência, o que se me acometeu: um sopro forte numa sala escura, onde habitavam a abstração total da intimidade e um altar pleno de todas as sensações (queria ver você reagir nesse momento). aquele lugar de sacrifício, no qual as minhas, e tantas outras histórias e dores, foi meu pungente e único lar. uma tela e muitas vidas.

o cinema é a morada dos sem-teto da solidão, daqueles que estão predispostos a perder tudo, mesmo sem ter nada; daqueles que conhecem o mundo inteiro sem um carimbo no passaporte. ele é o primeiro e grande amor. contrariando todas as teorias psicanilíticas, o cinema para nós, filhos do século XX, é primordial.

temo ter exagerado um pouco, mas não além do que pulsa e expande em meu corpo e idéias.
em projeções vi de tudo: das coisas que não existem e foram criadas às pesquisadas e rememoriadas; das revisitadas às criticadas e redimensionadas; das inusitadas, inesperadas até as desesperadas para serem vividas.

e nessa ansiedade de viver o visto, dei-me conta da minha humanidade incapaz. que nem meus olhos, que um dia haverão de falhar, são possíveis de, contemporeneamente, alcançar o sentimento de um mundo em contínua transformação.

e foi nessa hora, senhorita, que dei a ti e a quem mais quisesse aceitar, o meu frágil e pulsante coração.

então decidi ser aquele que não mede a sua farsa, para não ser maculado por uma sensação que morreria comigo sem nome, e terminar os dias mascarado de pudor e niilismo.

certa noite eu dormi um sono absurdo e acordei abusado de amor. e agora me vejo em mil partes, um belo produto de nós: HOMENS; e assim tornei-me outro. dotado de uma compaixão na qual caberiam todos os amantes: repletos de suas verdades, erros e crenças.

eu me reconheci um átomo do nosso tempo, senhorita. uma poeira simples, mas densa: a explosão de um passamento.

quarta-feira, julho 23, 2008

a primeira

querida senhorita feliciana,


tomei a liberdade de escrever-lhe uma singela carta nessas épocas em que cartas são muito pouco escritas. de pouco nos conhecemos, mas tomei ciência das suas práticas textuais graças ao universo de hiperlinks que nos faz curiosos e audazes, e claro, não descartar que estamos ligados por entes muito caros a nós.

nesse primeiro esboço de correspondência, em primeiro lugar preciso dizer que sou um grande admirador das suas postagens e viagens. aproveito, então, para desenvolver um pouco mais essa última característica que tanto aprecio, que tanto me volta às idéias, e que lhe é tão presente.

imagine você, senhorita, uma madrugada fria, um passageiro solitário desejante de caminhos e de tempo. pois assim foi que comecei a rabiscar umas palavras na minha cabeça para você (réu confesso de que ando usando as sinapses na ausência da tela e não tenho me sentido muito à vontade com caligrafia e papel). pois que no lugar vazio ao meu lado, sem mãos dadas ou olhares cúmplices eu me gostei único, simultaneamente destinado e descompromissado. perdido, frágil, dono e desertor do meu próprio rumo. eu queria, apenas, “ir lá ver de perto”. mas senhorita, tive naquela madrugada, diante da minha postura, a sensação do privilégio de quem simplesmente passava em visita, em pura fruição: do trajeto desacompanhado, do amor prestes a ser revisto; dos braços pros quais, iria, depois, eu voltar. pois, senhorita, foi esse meu ar frouxo, avoado da sorte, que me fez vazar de ternura ao redor da noite avançada e congelante da cidade maior que a minha. na minha viagem, pus a viajar com a partida dos outros. uma família voltando para casa, um lugar chamado paraíso, que nem de posse da curiosidade e do gps fui capaz de precisar: bahia, santa catarina, goiás... minas gerais. interior, isso eu bem sabia ou desconfiava pelas dobras no rosto da avó, pelo peso de não ter dado certo, nos olhos do neto; pelo jeito da filha que fica, e que ainda quer tentar ; pelas malas, trouxas, quentinhas, uma tv pequena e um rádio com cd.

dois tipos de experiência, duas escalas de estrangeiros, a de quem passa e a de quem sente. eis as mais intensas viagens: com saudades, com amarras, com memórias vincadas na pele por elas mesmas; e nós, procurando motivos de tatuar as nossas. foi então, senhorita, que passou um vento absurdo e carregou o que de mais leve morava solto pelo chão. e sendo assim, senhorita, arrebatei-me, na hora, de paixão por aquela cena: não passavam de nossas memórias, ali, carregadas por um sopro (como todos os possíveis para não levar ao sufoco) ao alcance de um braço esticado ou de uma corrida; memórias viajantes, que nos convém pegar, rever, mas por fim... deixar voar.

como se fosse em qualquer lugar, por aqui, não me alongo mais. espero que bem receba minhas falas, são de tudo, um coração.

abraços, saúdes

do seu fingidor

sexta-feira, junho 06, 2008

tratado de paredes

por aqui, aproveito para me confessar que desde que partimos- você à procura das suas exigências, e eu precisando de novos ares- comecei a guardar lembranças. isso te deve soar engraçado. justo eu que substituía momentos como uma espécie de artista de colagem.
fico querendo me conectar em tudo para obter minha nova paisagem e ter uma atmosfera mais leve sobre todas as forças que me rondam. ainda não consigo. por enquanto tudo é abuso, esgotamento. o meu lugar ainda está bastante desarrumado, existem coisas que devem ser postas e outras tiradas. não consegui sintonia para a tv, mas tudo bem, o tempo também não está ajudando; e tenho o computador, os livros, os cds, o trabalho e a cidade desconhecida que seqüestram minha atenção, enquanto chegam a mim problemas e alguns instantes de criatividade. acho que foi por isso que resolvi mentir para páginas em branco, não sei bem se esse foi um vício ou uma virtude que aprendi com você, de qualquer forma é o meu jeito de te carregar mais perto. mas de repente eu acabo. escorrego para dentro de uma floresta de redundâncias e desejos, minhas mais plenas afetações. sinto falta das nossas ruas tortas que teimavam em se cruzar. mande notícias. que tenho saudade do jeito que me contava histórias: prolixo, duvidoso, sarcástico, sem finais felizes, na verdade, muitas das vezes sem final algum.

quinta-feira, abril 17, 2008

paralax

acostumou-te a me usar pra falar de ti. gostava das teses que eu criava, e do jeito que eu te surpreendia. como um espectro que não tem forças pra viver, e tu alimentavas com desamores, angústias, medos, fracassos, e um ou outro sonho.
era o que me mantinha a tua sombra; agora só existem restos desses tempos e tua cabeça a enroscar o pescoço em busca da minha voz. por isso me queres: mais valia de um alter ego.
eu sinto, e não posso mais responder por ti quando te faltam palavras; é que teu tempo já não faz parte do meu: teus imediatos, meus eternos.
agora põe teus olhos de volta no horizonte, e te acalma. daqui pra frente cabe a ti te construir sem minhas interferências.
no mais, adeus.