quarta-feira, abril 11, 2007

festa de sísifo

Quando acordou já estava na segunda caneca de café amargo, como os de sempre, mas especialmente frio hoje, para que o dia fizesse sentido.
Engoliu, sem calma, o trago que jazia escuro, gelado, rascante. Não mudou de rosto enquanto descia-lhe aquele gole da sua existência.
Ali, de caneca em punho, havia algumas horas sem vento, ou gosto, ou, até mesmo, sem tempo que acaba. Mas urgia acabar. Fosse como fosse, mas deveria planificar aquele nada enrugado, cheio de dobras nas quais tropeçava.
Decidiu, então, amadurecer no olhar a idéia de começo pelo fim, como se lesse as três últimas linhas de um escrito qualquer, e só assim se interessaria pela história, um jeito de passar branco pelas dores.
Pois que, de fato, nunca se ouviu notícias de dor maior que aquela. Que num átimo a manhã foi se arroxeando, e a lua gritava, janela à dentro, que até o café precisava ser refeito.
Dormiu, enfim, mesmo desperto. De olhos doídos, por tanto estarem abertos, esperando amanhã para poder clarear.