quarta-feira, julho 23, 2008

a primeira

querida senhorita feliciana,


tomei a liberdade de escrever-lhe uma singela carta nessas épocas em que cartas são muito pouco escritas. de pouco nos conhecemos, mas tomei ciência das suas práticas textuais graças ao universo de hiperlinks que nos faz curiosos e audazes, e claro, não descartar que estamos ligados por entes muito caros a nós.

nesse primeiro esboço de correspondência, em primeiro lugar preciso dizer que sou um grande admirador das suas postagens e viagens. aproveito, então, para desenvolver um pouco mais essa última característica que tanto aprecio, que tanto me volta às idéias, e que lhe é tão presente.

imagine você, senhorita, uma madrugada fria, um passageiro solitário desejante de caminhos e de tempo. pois assim foi que comecei a rabiscar umas palavras na minha cabeça para você (réu confesso de que ando usando as sinapses na ausência da tela e não tenho me sentido muito à vontade com caligrafia e papel). pois que no lugar vazio ao meu lado, sem mãos dadas ou olhares cúmplices eu me gostei único, simultaneamente destinado e descompromissado. perdido, frágil, dono e desertor do meu próprio rumo. eu queria, apenas, “ir lá ver de perto”. mas senhorita, tive naquela madrugada, diante da minha postura, a sensação do privilégio de quem simplesmente passava em visita, em pura fruição: do trajeto desacompanhado, do amor prestes a ser revisto; dos braços pros quais, iria, depois, eu voltar. pois, senhorita, foi esse meu ar frouxo, avoado da sorte, que me fez vazar de ternura ao redor da noite avançada e congelante da cidade maior que a minha. na minha viagem, pus a viajar com a partida dos outros. uma família voltando para casa, um lugar chamado paraíso, que nem de posse da curiosidade e do gps fui capaz de precisar: bahia, santa catarina, goiás... minas gerais. interior, isso eu bem sabia ou desconfiava pelas dobras no rosto da avó, pelo peso de não ter dado certo, nos olhos do neto; pelo jeito da filha que fica, e que ainda quer tentar ; pelas malas, trouxas, quentinhas, uma tv pequena e um rádio com cd.

dois tipos de experiência, duas escalas de estrangeiros, a de quem passa e a de quem sente. eis as mais intensas viagens: com saudades, com amarras, com memórias vincadas na pele por elas mesmas; e nós, procurando motivos de tatuar as nossas. foi então, senhorita, que passou um vento absurdo e carregou o que de mais leve morava solto pelo chão. e sendo assim, senhorita, arrebatei-me, na hora, de paixão por aquela cena: não passavam de nossas memórias, ali, carregadas por um sopro (como todos os possíveis para não levar ao sufoco) ao alcance de um braço esticado ou de uma corrida; memórias viajantes, que nos convém pegar, rever, mas por fim... deixar voar.

como se fosse em qualquer lugar, por aqui, não me alongo mais. espero que bem receba minhas falas, são de tudo, um coração.

abraços, saúdes

do seu fingidor

2 comentários:

senhorita feliciana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
senhorita feliciana disse...

peito continua arrebatado mas agora remendado o suficiente para costurar-lhe palavrinhas...e a primeira carta está, finalmente, à caminho.

sinceramente,

senhorita feliciana