terça-feira, outubro 14, 2008

a segunda

senhorita,

há meses lhe aguardo uma resposta. sei bem das suas complicações laboriais, portanto, sequer lhe cobro. apenas coloco de novo, para mim e ti, ventos que sopraram.

foi nos olhos, direto, e no peito por conseqüência, o que se me acometeu: um sopro forte numa sala escura, onde habitavam a abstração total da intimidade e um altar pleno de todas as sensações (queria ver você reagir nesse momento). aquele lugar de sacrifício, no qual as minhas, e tantas outras histórias e dores, foi meu pungente e único lar. uma tela e muitas vidas.

o cinema é a morada dos sem-teto da solidão, daqueles que estão predispostos a perder tudo, mesmo sem ter nada; daqueles que conhecem o mundo inteiro sem um carimbo no passaporte. ele é o primeiro e grande amor. contrariando todas as teorias psicanilíticas, o cinema para nós, filhos do século XX, é primordial.

temo ter exagerado um pouco, mas não além do que pulsa e expande em meu corpo e idéias.
em projeções vi de tudo: das coisas que não existem e foram criadas às pesquisadas e rememoriadas; das revisitadas às criticadas e redimensionadas; das inusitadas, inesperadas até as desesperadas para serem vividas.

e nessa ansiedade de viver o visto, dei-me conta da minha humanidade incapaz. que nem meus olhos, que um dia haverão de falhar, são possíveis de, contemporeneamente, alcançar o sentimento de um mundo em contínua transformação.

e foi nessa hora, senhorita, que dei a ti e a quem mais quisesse aceitar, o meu frágil e pulsante coração.

então decidi ser aquele que não mede a sua farsa, para não ser maculado por uma sensação que morreria comigo sem nome, e terminar os dias mascarado de pudor e niilismo.

certa noite eu dormi um sono absurdo e acordei abusado de amor. e agora me vejo em mil partes, um belo produto de nós: HOMENS; e assim tornei-me outro. dotado de uma compaixão na qual caberiam todos os amantes: repletos de suas verdades, erros e crenças.

eu me reconheci um átomo do nosso tempo, senhorita. uma poeira simples, mas densa: a explosão de um passamento.